Como ler o laudo do seu cateterismo

Revisado em outubro de 2026 por Dr. Thomas Edison Cintra Osterne — MÉDICO · CRM-DF 15683 · RQE 14029 (Cardiologia) · RQE 16921 (Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista)

Você saiu do cateterismo com um papel cheio de siglas — DA, CX, CD, “dominância direita”, “lesão obstrutiva de 70% no terço médio” — e provavelmente já digitou algumas delas no Google antes de chegar aqui.

Esta página traduz cada termo. A ideia é simples: quando você entende o que está escrito, a conversa com o seu cardiologista rende muito mais.

Antes de continuar, uma coisa importante. Este texto explica o vocabulário do laudo. Ele não interpreta o seu caso e não substitui a consulta. Dois laudos com os mesmos percentuais podem levar a condutas completamente diferentes, dependendo dos seus sintomas, dos seus exames anteriores, das suas outras doenças e da sua idade. A leitura que importa é a que o seu médico faz com você na frente.


O que é o laudo do cateterismo

O laudo é a descrição do que foi visto nas imagens das suas artérias coronárias. Ele costuma ter quatro partes: a anatomia (quais artérias você tem e como se distribuem), as lesões (onde há estreitamento e de quanto), a função do coração (quando se faz a ventriculografia) e a conclusão.

Não é uma sentença. É um mapa.


As artérias: o que significam DA, CX e CD

O coração é irrigado por duas artérias coronárias que saem da aorta e se ramificam. As siglas do laudo são os nomes dessas ramificações.

Sigla Nome completo O que irriga
TC ou TCE Tronco da coronária esquerda O tronco principal do lado esquerdo, que se divide em DA e CX
DA Descendente anterior A parede da frente do coração e boa parte do septo
Dg Diagonal Ramos que saem da DA
CX Circunflexa A parede lateral
Mg Marginal Ramos que saem da CX
CD Coronária direita A parede de baixo e o lado direito
DP Descendente posterior A parede de baixo (vem da CD ou da CX)
VP Ventricular posterior Ramo posterior

Por que a DA aparece tanto nas conversas: ela irriga a maior área de músculo cardíaco. Uma obstrução importante no início dela (a “DA proximal”) costuma pesar mais na decisão de tratamento do que a mesma obstrução em um ramo pequeno.


“Terço proximal, médio e distal” — onde fica a lesão

Cada artéria é dividida em três partes, como um cano:

  • Proximal — o começo, mais perto da aorta
  • Médio — o meio
  • Distal — o fim, na ponta

Quanto mais no começo está a obstrução, mais músculo fica sem sangue abaixo dela. É por isso que “lesão no terço proximal da DA” chama mais atenção que “lesão no terço distal”.


“Dominância direita” — o que isso quer dizer

Dominância não tem nada a ver com gravidade. É apenas a descrição de qual artéria dá origem ao ramo que irriga a parede de baixo do coração (a descendente posterior).

  • Dominância direita — vem da coronária direita. É o padrão mais comum, presente na grande maioria das pessoas.
  • Dominância esquerda — vem da circunflexa.
  • Codominância ou dominância balanceada — as duas contribuem.

Se o seu laudo começa com “circulação coronária de dominância direita”, ele está apenas dizendo como é a sua anatomia — do jeito que é na maioria das pessoas. Não é um achado ruim.


Os percentuais: o que significa “lesão de 70%”

O número é a estimativa de quanto o diâmetro da artéria está reduzido naquele ponto. Uma “lesão de 70%” significa que sobraram cerca de 30% do calibre original.

De forma geral, os laudos usam estas faixas:

No laudo O que costuma significar
Irregularidades parietais ou lesões não obstrutivas (< 50%) Há placa de aterosclerose, mas ela ainda não limita de forma relevante o fluxo
Lesão moderada (50% a 70%) Zona intermediária — muitas vezes é preciso um teste adicional para decidir
Lesão obstrutiva significativa (≥ 70%) O estreitamento é considerado capaz de limitar o fluxo
Lesão crítica ou suboclusiva (90% a 99%) Estreitamento muito acentuado
Oclusão total (100%) A artéria está totalmente fechada naquele ponto

Três observações que mudam a leitura desses números:

  1. No tronco da coronária esquerda, o limiar é mais baixo. Uma lesão de 50% no tronco já é considerada significativa, porque ele irriga uma área muito grande.
  2. A lesão de 50% a 70% é a mais discutida. Ver o estreitamento não diz se ele está de fato atrapalhando o fluxo. Para isso existem medidas funcionais feitas durante o próprio cateterismo, como o FFR e o iFR, que medem a pressão antes e depois da lesão. É comum o laudo trazer esse número — e ele é o que de fato orienta a decisão nessa faixa.
  3. O olho humano erra. Por isso se usa cada vez mais a imagem intracoronária (IVUS e OCT), que filma a artéria por dentro e mede o calibre real.

“TIMI 0, 1, 2 ou 3” — a velocidade do sangue

O TIMI descreve como o contraste corre dentro da artéria — ou seja, como está o fluxo:

  • TIMI 0 — nenhum fluxo passa. Artéria ocluída.
  • TIMI 1 — o contraste entra mas não chega ao fim do vaso.
  • TIMI 2 — o contraste chega ao fim, porém mais devagar que o normal.
  • TIMI 3 — fluxo normal.

Depois de uma angioplastia, ver TIMI 3 no laudo é o resultado que se espera: a artéria voltou a ter fluxo normal.


“Uniarterial, biarterial, triarterial”

É a contagem de quantas das três principais artérias (DA, CX e CD) têm lesão obstrutiva significativa.

  • Uniarterial — uma
  • Biarterial — duas
  • Triarterial — as três

Triarterial não significa automaticamente cirurgia. É um dos elementos da decisão, ao lado da função do coração, da presença de diabetes, da anatomia específica das lesões e dos seus sintomas. Existem escores próprios para pesar tudo isso, e a recomendação das diretrizes brasileiras e internacionais é que casos assim sejam discutidos em conjunto entre o cardiologista clínico, o intervencionista e o cirurgião — o que se chama de Heart Team.


Outros termos que aparecem com frequência

Calcificação — depósito de cálcio na parede da artéria, que a deixa endurecida. Quando é muito intensa, o balão e o stent não abrem bem, e pode ser preciso preparar a lesão antes com técnicas específicas.

Ectasia e aneurisma — dilatação anormal de um trecho da artéria, o oposto do estreitamento.

Ponte miocárdica (ou trajeto intramiocárdico) — um pedaço da artéria que, em vez de correr por cima do coração, mergulha dentro do músculo. É uma variação anatômica relativamente comum e, na maioria das vezes, não causa problema.

Circulação colateral — vasos que o próprio corpo desenvolveu para levar sangue a uma região cuja artéria está obstruída. É um mecanismo de defesa, e sua presença muda o raciocínio sobre uma artéria ocluída.

Reestenose intra-stent — estreitamento que se formou dentro de um stent implantado antes.

Lesão em bifurcação — a lesão pega o ponto onde a artéria se divide em duas. Exige técnica específica.


A parte sobre a função do coração

Quando se faz a ventriculografia, o laudo descreve como o músculo se contrai:

  • Fração de ejeção — o percentual de sangue que o ventrículo esquerdo ejeta a cada batida. Valores em torno de 55% a 70% são considerados normais.
  • Hipocinesia — a parede se contrai menos que o normal
  • Acinesia — a parede não se contrai
  • Discinesia — a parede se move para fora quando deveria se contrair

Essas alterações costumam ser descritas por região (anterior, inferior, apical), o que ajuda a relacionar a área comprometida com a artéria correspondente.


E depois do laudo, o que acontece

Com o mapa nas mãos, existem três caminhos, e eles não são concorrentes — muitas vezes se combinam:

  1. Tratamento clínico — medicamentos e controle dos fatores de risco. É a base de todo tratamento, inclusive de quem faz angioplastia ou cirurgia.
  2. Angioplastia com stent — desobstrução por cateter.
  3. Cirurgia de revascularização — as pontes.

A escolha depende de muito mais do que os percentuais: dos seus sintomas, da quantidade de músculo em risco, da função do coração, das suas outras doenças e da anatomia exata das lesões.


O que o laudo sozinho não responde

Por mais que você entenda cada termo, há perguntas que o papel não resolve:

  • Se você precisa de stent. Isso depende de sintomas, testes funcionais e do conjunto.
  • Se é urgente. A urgência vem do quadro clínico, não do número.
  • Qual o seu prognóstico. Nenhum laudo isolado permite essa conclusão.

Se você leu o seu laudo e ficou com dúvidas, leve-as anotadas para a consulta. Uma lista de perguntas escritas costuma render mais que uma hora de internet.


Perguntas frequentes

Lesão de 70% precisa de stent? Não necessariamente. Uma lesão de 70% é considerada obstrutiva do ponto de vista anatômico, mas a decisão de tratar leva em conta sintomas, resultado de testes funcionais (como o FFR) e qual artéria está acometida. Há pessoas com lesão de 70% tratadas apenas com medicamentos e acompanhamento.

Meu laudo diz “lesões não obstrutivas”. É grave? Significa que existe placa de aterosclerose nas artérias, mas sem estreitamento importante. Não é motivo para pânico — e também não é motivo para ignorar. É o sinal mais claro possível de que o controle de colesterol, pressão, diabetes, peso, tabagismo e atividade física passa a ser prioridade.

O que significa “dominância direita”? Apenas que o ramo que irriga a parede de baixo do coração vem da coronária direita. É o padrão anatômico da maioria das pessoas e não indica doença.

O que é TIMI 3? É a descrição de fluxo normal dentro da artéria. Depois de uma angioplastia, é o resultado esperado.

Triarterial significa que vou ter que fazer cirurgia? Não automaticamente. Doença triarterial é um dos critérios que pesam a favor da cirurgia, mas a decisão considera também a função do coração, a presença de diabetes, a anatomia das lesões e a sua preferência. A recomendação é que esses casos sejam discutidos em conjunto por cardiologista, intervencionista e cirurgião.

Fiz o cateterismo e não precisou colocar stent. Por quê? Acontece com frequência. O cateterismo é primeiro um exame diagnóstico — ele mostra o mapa. Se não há lesão obstrutiva significativa, ou se a lesão encontrada é mais bem tratada com medicamentos ou com cirurgia, não se implanta stent naquele momento.

O que é ponte miocárdica? Um trecho da artéria que corre por dentro do músculo do coração, em vez de por cima. É uma variação anatômica comum e, na maior parte dos casos, não causa sintomas nem exige tratamento.

Posso decidir pelo laudo se faço cirurgia ou stent? Não. O laudo é um dos elementos da decisão, e nenhum tratamento em cardiologia se define apenas por imagem. Se você recebeu uma indicação e ficou em dúvida, procurar uma segunda avaliação é um caminho legítimo e comum.


Entendeu o seu laudo e ainda ficou com dúvidas sobre a conduta indicada? Veja como funciona o parecer do intervencionista →